Caatinga
"Alas qui foi um truvejo. in certa altura da labuta já quaji disurino. Tarei me apeguei cum Deus e cum o dijidoro dum bando de malungo muntemo o mundengo, fumo cunseguino e já cum água na capa da cela cheguemi lá. Nestes termos Zé Nandú, Zé Krau ou Quilimero resumiria o falatório, que se segue. Vendo os janeiros entrando, as canções chegando e sumindo e o encordoamento da goela cansando, me aviei em fazer logo um disco ou dois ou mais. E como fazer isto? Fizeram os gravadoras lá pelas bandas do Sul, muito longe da catinga, cidade grande barulhenta, apertucho muito regulamento elevados documentos na capanga, comida ruim... Não vou não. Resolvo, vou. E os quadros manchetes catidianos registrados pela imprensa? Vou ou não, me difini. Arranjo um "nagra" e vou gravar isto é lá em casa no Rio do Gavião junto dos bodes no meio do chigueiro. Não precisa estúdio; conversa de vaqueiro, cantinga de grilo, budejo de pai-de-chiqueiro se entrar na fita fica, faz parte. E mais cadê o nagra? Nessa enrola um ano se foi. Daí é que dando um pulo a Salvador para u'a cantoria ligeira de fim de ano, e sou que eu desse por fé. Carlos Pita, Alcivando, João Américo, Dércio Marques, Xangai, Fábio, Limonge, Gildásio e Vicente (um bando) já tinham armado a arapuca. Foi só puchar o cipó e de repente me vi enredado na trama de fios do estúdio do Seminário de Música da Universidade da Bahia, o que nos foi concedido pelo seu diretor o Prof. Ernest Wildmer ao qual nesta oportunidade faço meus agradecimentos.
Foram longas horas de studio; trabalho pesado, esgotante e o pior, o que dá raiva, são as tais fitas em rolo, é um rôlo, é um rôlo! Quando a gente pensa que "matou" 4 ou 5 canções, Alcivando e João, bradam: grava tudo de enovo (um tal de decapo). Que foi lá? Fitas defeituosas, defeito de fabricação isto é demais, custou muito, não vou gravar essa mundiça mais não. Grava, não grava, enfim ficaram prontos os rôlos. Rôlo brabo foi entrar num avião, cortar o céu e descer naquela galáxia em vias de explosão (S.Paulo)
Virgelino! Ali com o apoio do Sr. Marcus Pereira, conseguiu contrar a prensagem na fábrica de discos Copacabana. Por 8 dias no (S.Paulo) andei naqueles subterrâneos, gargantas e desfiladeiros de paredes verticais. Um mundo perdido carcumido por ventos maleitosos, mortíferas fumaças "estroncios letais", milhões de seres palidos macrobios, uma guerra telúrica. Geraldo um amigo catingueiro que ora sujegado naquele habitat e já portanto afeito ao elemento envenenado foi meu guia enquanto eu errava, me lembrnado do Rei Davi, na imensidão daqueles vales onde por vezes eu vi passar de largo a sombra da morte. E parados na sala grande do museu eu vi também os Retirantes de Portinari. No meio d'ua travessia, boquinha-de-noite, sinaleira fechada, uma aflição imensa com medo de não dar tempo; de salto armado e olhos semicerrados a grande alcatéia de monstros prestes desfechar o salto e esfarelar a gente. No meio da tribulação me lembrei de Remundo, no esfregas dos olhos vi no fim do mundo no êrmo as ruas desoladas e dos casarões entravam e saiam ratos, cobras, morcêgos e corujões... como disseram os profetas hebraicos.
Dai, veio o rôlo derradeiro, foi um tumba, a capa, dos discos. Foi com menos sofrimento já estavaa na Bahia. Com um grande lãinna pesada a Planus Propaganda meou e finalizou a arte. Um bando de malungo, realmente, mil vaquêro internado nos serrado de jurama campiano trem alevantado.
Nunca pretendi fazer disco adereçado de altos requintes tecnicos tão somente a pura e simples documentação de meu trabalho sem que turbe o espirito das coisas e do lugar donde ele saiu. Este disco foi feito a facão, no Nordeste, com o digitoro de muitos amigos, o sacrificio meu e de minha mulher e sobre todas as coisas, com o consetimento de Deus.
Estes cantares e estes falares são lembranças que a catinga agradecida manda para o amigo Henfil"

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